quarta-feira, 26 de novembro de 2008


PELO CENTRO

Caminhando pelo centro da cidade de São Paulo, mais precisamente em frente à Universidade de Direito do Largo São Francisco, numa quarta-feira que não era de cinzas pois estamos na primavera, mas parecia, vi uma cena em frente à Universidade que mais parecia uma campana de pessoas deitadas no chão para comprar a entrada de um grande show de rock, como era comum na minha época de adolescente quando alguma grande banda vinha tocar no Brasil.

Mas não era exatamente isso, na verdade, eram mendigos, alguns deitados e conversando e outros ainda tentando dormir.

De um lado estava eu, com meu paletó preto, gravata vermelha com algumas variantes, camisa branca, relógio no pulso, o anel que representa a minha profissão que minha mãe me deu de presente, na pasta alguns documentos e livros, enquanto do outro lado, a menos de cinco metros de mim, estavam eles, simplesmente mendigos, o chão como colchão, panos como roupas, a claridade como noção de tempo e a sujeira no rosto como proteção.

Quanta disparidade em tão pouco espaço, e mesmo assim ficamos cegos, nem os vemos mais, é como se não existissem, mas hoje eu os enxerguei. Na maioria das vezes passam por mim e às vezes só percebo porque me pedem algum trocado, pois do contrário, é como se fossem invisíveis.

Vivem como animais enquanto vivemos como Reis e Rainhas. Logo, acho que posso concluir então que daqui a pouco tempo veremos animais andando pelas ruas com paletós e pastas nas patas e pessoas em coleiras de cachorros. A verdade é que eu já não sei mais o que meus olhos podem ver.

O ano de 2008 me deu uma lição dificílima de aprender: Que o que é certo e o que é errado pode ser interpretado de acordo com o que você entende ser. Depende do entendimento de cada pessoa. Sendo assim, vou abrir meus olhos para essa realidade, sem medo do que posso ver, e encarar a falta de condição humana como algo verdadeiro e correto. Como algo normal. Difícil de encarar, mas normal.

Nesse ano eu tentei abrir os olhos, gritei, chorei, pensando sempre no melhor, arrecadei roupas e leite para doar pensando em erradicar a fome e nada mudou. Num determinado ponto disso tudo e na minha visão, os errados continuaram errados e os pobres continuaram pobres, mesmo com meu esforço fraternal, logo, cheguei à conclusão de que a verdade é diferente para cada um, e enquanto eu estou indo trabalhar vendo um mendigo e tenho dó dele, pode ser que olhe para mim e lamente o estilo de vida que escolhi para mim.


Daniel Bedotti Serra
26/11/2008

2 comentários:

raTo! disse...

vc mudou o rumo da história repentinamente, ahhaaha, eu estava esperando um fim e veio outro.

na verdade vc já me falou a mesma frase, só que com hippies, ahahhahaha, de mendigo não.

é foda cara, mas não acho q os mendigos escolheram esta vida, diferente dos hippies, acho que no caso dos mendigos é mais a situação mesmo.

abraxxx

Obs.: gostei do texto, está entendendo o espírito da coisa.

Lucas B. disse...

Dani, desculpa, mas aceitar como normal você vai estar jogando fora toda a construção histórica que levou a essa situação, com exceção dos casos de deficiência mental acho que você não pode refutar a idéia de essas pessoas não estão por escolha, esse seu texto me pareceu um pouco conformista, um conformismo de quem se esforçava para quebrar a dominação intelecto-cultural que somos submetidos mas que parece que sucumbiu.
Dani aceitar tais coisas como normal é simplesmente a ideologia pequeno-burguesa e religiosa que prefere manter o seu discurso de que se tais pessoas trabalhassem não estariam alí, ou, se elas estão nessa situação é porque tinham que estar.
Lembre-se de que alienação do homem enquanto produtor de sua subsistência começou com a revolução indústrial, então isso que vemos na rua nada mais é do que o fruto de um sistema que nasceu falido, mas que infelizmente goza de muitos meios para manter a sua dominação e fazer com que até mesmo as pessoas que percebem isso, acabem entregando os pontos não vislumbrando a mudança.
Você se sentir assim é normal, hoje ninguém consegue vislumbrar uma sociedade diferente daquilo que conhecemos e entendemos por sociedade, mas por favor Dan, não pare de exercer sua reflexão aceitando tudo aquilo que você imagina que não tem solução, não descarte nunca a idéia de que você é parte, é agente transformador e se você vislumbra alguma mudança, primeiro tome uma consciência de classe.